Muita gente não entende quando se reclama do assédio nas ruas, ou street harassment. Alguns homens dizem: "agora não dá nem pra elogiar mais!". Há uma grande diferença entre o elogio e o assédio. O elogio é para fazer O OUTRO se sentir bem. O assédio é para fazer O ASSEDIADOR sentir-se bem, a partir do sentir-se mal do outro. E entre esses dois polos, existem palavras, gestos e atitudes que estão mais relacionados com um, mais relacionados com outro. Enfim, é cultural.
Não poucos autores, da psicologia à semiótica, falam de uma violência que é da ordem do olhar, ou das palavras. Não chega a ser um soco, um tapa, uma contusão que vai deixar marcas roxas e membros quebrados, mas é uma agressão que fere na alma. Dói mais ou dói menos? Acho que não existe medida pra isso. O importante é saber que UM se satisfaz com a dor, ou o constrangimento, ou o sofrimento, ou a humilhação do OUTRO.
Boa parte desse tipo de assédio está fundado nos aspectos da sexualidade e do poder. Alguns olhares e palavras querem dizer "olha só o que eu poderia fazer com você agora". E esse "o que", no assédio, obviamente, nunca é algo que a outra pessoa quer. É um tomar à força, um invadir, um desrespeitar o direito que cada um tem de dizer sim ou não, INDEPENDENTEMENTE do que estiver vestindo/falando/bebendo etc.
A "justificativa" para o assédio, então, parte de elementos da aparência de alguém que, para o assediador (e para a sociedade, evidentemente, porque ele não vai tirar a ideia do nada), significam que a pessoa assediada "merece", "está pedindo". Pode ser a roupa, pode ser a forma do corpo ou pode ser, simplesmente, aquilo que "indica" o gênero feminino. Mas se tal tipo de assédio é algo típico de uma sociedade machista e patriarcal, não se pode dizer que, nesse sistema, TODA a vítima é mulher e TODO algoz é homem. Homens também são afetados pelo "machismo", assim como também existem mulheres "machistas".
Fiquei com vontade de escrever sobre isso depois de três cenas vivenciadas essa semana aqui na Itália.
Cena 1: cruzamento movimentado em Milão. Cidade grande, cosmopolita. Calor dos infernos. Sinal fechado para pedestres e também para os veículos de uma das pistas da rua próxima.
Entre tantas pessoas que esperam para atravessar, uma mulher usando shorts e camiseta. Tudo muito "decente", se é pra a gente usar esse tipo de critério. Na rua, um grupo de oficiais da polícia municipal em motocicletas. Um deles, o da frente, olha acintosamente para a moça, medindo-a de alto a baixo. Seu olhar não é de admiração. É de desafio. É de afronta. É sexualmente agressivo.
Ela não olha para ele (não viu? Fingiu que não viu?). Ele não tira os olhos dela. Para ele, não basta admirar uma mulher bonita (digamos que fosse esse o objetivo...). Ele só estaria satisfeito se ela visse como ele olha para ela, tudo o que o olhar dele diz que poderia estar fazendo com ela ali na rua, ela querendo ou não.
Acho que isso me fez refletir sobre uma das diferenças entre o elogiar e o assediar: ele QUERIA que ela SOUBESSE.
Cena 2: tabacaria em Bologna. Cidade menor, mas que ainda assim se pretende cosmopolita, habitada por gente de todas as partes do mundo. Calor dos infernos.
Uma mulher entra no pequeno comércio para comprar um passe de ônibus e dois envelopes. Ela veste uma saia longa, uma regata e uma écharpe (tudo muito "decente"). Duas outras mulheres atendem no balcão: uma bem jovem e outra mais velha. A cliente dá bom dia e a mulher mais moça responde, olhando para o traje da cliente e dizendo com bastante ironia: "ma che calorosa a signora...".
Cena 3: ainda Bologna. Sábado à noite. Calor dos infernos. Uma mulher usa saia um pouco acima do joelho e camiseta preta com um decote discreto (tudo muito "decente"). Ela caminha por três quilômetros até o ponto de encontro com sua amiga. Passa por diversos homens, alguns estrangeiros. Nenhum fala diretamente com ela, ou dela, ou ao menos não em um idioma que ela possa entender.
Chegando na parte nobre da cidade, ao cruzar com um grupo de homens e mulheres italianos, bem vestidos, que saem de um café, ela ouve perfeitamente uma voz feminina se elevar para dizer dela, pelas costas, sempre com ironia: "ma che caldo!".
Não sou a mulher assediada do cruzamento em Milão (sou testemunha), mas sou a mulher que foi assediada duas vezes em Bologna. Assediada por outras mulheres, que não aprovaram as roupas que eu vestia, e que fizeram questão que eu soubesse disso sugerindo que eu estava mostrando demais o corpo.
Nesse ponto, tanto o policial asqueroso de Milão como as irônicas cidadãs italianas tiveram o mesmo objetivo: fazer com que outras pessoas se sentissem mal, para o próprio prazer ou para aliviar algum recalque/frustração com o qual não conseguem lidar.
E devo confessar: no meu caso, elas conseguiram.
9.6.13
3.3.13
Domani, concerto em homenagem a Lucio Dalla
Eu já tinha ouvido falar em Lucio Dalla, mas até poucos dias atrás não saberia dizer quase nada sobre ele. Agora, sei que este cantante italiano nasceu em Bologna, é muito querido por aqui e, amanhã, se estivesse vivo, faria 70 anos. Lucio Dalla morreu ano passado, em Montreaux, na Suiça, pouco antes de seu aniversário, durante a turnê que fazia pela Europa.
Sigo alguns perfis bolognesi no Facebook e venho acompanhando a movimentação em torno das comemorações desta data. Um destes perfis, o Succede Solo a Bologna (uma associação que visa preservar os costumes e as tradições da região, inclusive seu dialeto), promoveu hoje um evento chamado Una Canzone per Lucio. Ao meio-dia em ponto, todos deveriam abrir suas janelas e colocar para tocar uma canção de Dalla (e de Paola Palotino) chamada "4 Marzo 1943" (ano passado essa homenagem também foi feita e mais de 10 mil pessoas participaram, segundo a associação).
Empenhada em vivenciar da maneira mais próxima possível os hábitos da cidade, confirmei minha "presença" no evento. Primeiro passo: ver no YouTube a tal canção.
Qual não foi minha surpresa ao descobrir que já conhecia a música, mas em outra língua e na voz de outro grande cantor? "4 Marzo", que originalmente se chamava "Gesù Bambino", teve uma versão em português composta por Chico Buarque, que nós conhecemos como "Minha História" (Dalla e Chico se conheceram durante o auto-exílio do brasileiro na Itália, em fins dos anos 70, conforme explica esse texto bem ruinzinho publicado na Gazeta do Povo).
Acordei hoje pouco antes do meio-dia, mas como não percebi ninguém se movimentando para tocar Lucio Dalla com a janela aberta, também fiquei na minha (moro a uns 2 km do centro, talvez lá tenha sido diferente). Por outro lado, pretendo participar, amanhã, do concerto em homenagem ao cantante na Piazza Maggiore. Há um enorme palco sendo montado desde a semana passada. Passei por lá hoje e vi/ouvi testes de som e de luz. O show vai ter a presença de diversos cantores italianos, dos quais conheço apenas Andrea Bocelli.
Haverá alteração nos horários e trajetos dos ônibus e táxis, para facilitar o acesso ao local. Também vai ter telão na Piazza Nettuno, ali ao lado. O show está marcado para 21h10 (17h10 no horário de Brasília) e será transmitido ao vivo pela Rai Uno (Rai 1) – emissora de TV que também é a promotora do evento (aqui um link para assistir pela internet – a conferir se funciona).
Bravo, Lucio!
Sigo alguns perfis bolognesi no Facebook e venho acompanhando a movimentação em torno das comemorações desta data. Um destes perfis, o Succede Solo a Bologna (uma associação que visa preservar os costumes e as tradições da região, inclusive seu dialeto), promoveu hoje um evento chamado Una Canzone per Lucio. Ao meio-dia em ponto, todos deveriam abrir suas janelas e colocar para tocar uma canção de Dalla (e de Paola Palotino) chamada "4 Marzo 1943" (ano passado essa homenagem também foi feita e mais de 10 mil pessoas participaram, segundo a associação).
Empenhada em vivenciar da maneira mais próxima possível os hábitos da cidade, confirmei minha "presença" no evento. Primeiro passo: ver no YouTube a tal canção.
Qual não foi minha surpresa ao descobrir que já conhecia a música, mas em outra língua e na voz de outro grande cantor? "4 Marzo", que originalmente se chamava "Gesù Bambino", teve uma versão em português composta por Chico Buarque, que nós conhecemos como "Minha História" (Dalla e Chico se conheceram durante o auto-exílio do brasileiro na Itália, em fins dos anos 70, conforme explica esse texto bem ruinzinho publicado na Gazeta do Povo).
Acordei hoje pouco antes do meio-dia, mas como não percebi ninguém se movimentando para tocar Lucio Dalla com a janela aberta, também fiquei na minha (moro a uns 2 km do centro, talvez lá tenha sido diferente). Por outro lado, pretendo participar, amanhã, do concerto em homenagem ao cantante na Piazza Maggiore. Há um enorme palco sendo montado desde a semana passada. Passei por lá hoje e vi/ouvi testes de som e de luz. O show vai ter a presença de diversos cantores italianos, dos quais conheço apenas Andrea Bocelli.
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| Preparativos para o concerto em homenagem a Lucio Dalla na Piazza Maggiore. |
Haverá alteração nos horários e trajetos dos ônibus e táxis, para facilitar o acesso ao local. Também vai ter telão na Piazza Nettuno, ali ao lado. O show está marcado para 21h10 (17h10 no horário de Brasília) e será transmitido ao vivo pela Rai Uno (Rai 1) – emissora de TV que também é a promotora do evento (aqui um link para assistir pela internet – a conferir se funciona).
Bravo, Lucio!
26.2.13
Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira
Ontem fui visitar um apartamento cujo anúncio tinha visto semana passada, no mural da faculdade de Ciências Sociais, que fica bem pertinho aqui do hotel. É um apartamento de dois quartos na via Pasubio, onde vive um casal de estudantes. Um dos quartos eles queriam alugar para uma ragazza.
Olhei no mapa e decidi encarar o percurso a pé até o local, do outro lado da cidade. Sabia que era longe, mas a caminhada permite sentir o clima das ruas. Depois fui ver que era uns 3 km do centro até o endereço – exceto pelo fato de que errei o caminho e tive que ir e voltar umas quadras a mais. O prêmio? Passar por esse parque, ainda coberto pela neve que caíra no final de semana.
O apartamento era muito agradável e os moradores, idem. Continuo impressionada com a gentileza, acessibilidade e disponibilidade das pessoas por aqui, por mais que tenham dito que isso é porque sou mulher, branca, estudante e brasileira. (Parece que não andam tão cordiais com jovens imigrantes do sexo masculino com potencial para disputar os parcos empregos. A conferir.)
Na volta, peguei meu primeiro ônibus em Bologna, o número 19. Mesmo com seus 500 mil habitantes, ruas estreitas e prédios de trocentos anos (que poderiam ser prejudicados com a vibração), todos os autobus são enormes e articulados. Não tem cobrador: você pode validar um cartão que dá direito a várias viagens ou validar um bilhete (comprado antecipadamente em uma tabaccheria) que permite fazer viagens no período de 1 hora. Pode, ainda, comprar sua passagem dentro do coletivo, depositando 1,50 euro numa vending machine. O bilhete antecipado custa 1,20 euro. Quanto aos cartões, há várias modalidades. Não há ninguém controlando se você pagou ou não, se validou ou não. Porém, tá rolando uma campanha educativa: "io vado e non evado".
Chegando ao miolo do centro histórico, próximo ao cruzamento em que a via San Felice se torna via Ugo Bassi, o ônibus parou. Pensamos que se tratava do sinal vermelho. Depois de um tempo fora do normal, o motorista abre a porta para que a gente desça. Há um Citroën parado exatamente no meio da rua, que é acesso importante para o centro e para o outro lado da cidade. A polícia está por ali, mas parece tranquila. Não é um acidente.
Pergunto ao motorista do ônibus se o carro está estragado, e ele diz que sim. "E por que não empurram?" – o verbo "empurrar" foi na base do gesto, porque não sei como se diz em italiano. Aí ele me explica que o carro está com o freio de mão puxado, e que esse freio é eletrônico e pifou. Não tem como tirar o carro dali, a não ser com um guindaste – palavras dele, se divertindo com a história. Pra terminar, me diz que posso pegar outro ônibus da mesma linha uns 300 metros à frente (nesse momento aprendo que o bilhete vale por 1 hora).
Enquanto sigo para a próxima fermata (ponto de ônibus) fico pensando: a cidade tem centenas de anos, já passou por um monte de guerras e disputas de poder e, até hoje, não conseguiram pará-la. Estava faltando um moderníssimo Citroën automático com o freio de mão puxado.
Olhei no mapa e decidi encarar o percurso a pé até o local, do outro lado da cidade. Sabia que era longe, mas a caminhada permite sentir o clima das ruas. Depois fui ver que era uns 3 km do centro até o endereço – exceto pelo fato de que errei o caminho e tive que ir e voltar umas quadras a mais. O prêmio? Passar por esse parque, ainda coberto pela neve que caíra no final de semana.
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| Parco na via Pasubio, próximo a um dos apartamentos que visitei. |
O apartamento era muito agradável e os moradores, idem. Continuo impressionada com a gentileza, acessibilidade e disponibilidade das pessoas por aqui, por mais que tenham dito que isso é porque sou mulher, branca, estudante e brasileira. (Parece que não andam tão cordiais com jovens imigrantes do sexo masculino com potencial para disputar os parcos empregos. A conferir.)
Na volta, peguei meu primeiro ônibus em Bologna, o número 19. Mesmo com seus 500 mil habitantes, ruas estreitas e prédios de trocentos anos (que poderiam ser prejudicados com a vibração), todos os autobus são enormes e articulados. Não tem cobrador: você pode validar um cartão que dá direito a várias viagens ou validar um bilhete (comprado antecipadamente em uma tabaccheria) que permite fazer viagens no período de 1 hora. Pode, ainda, comprar sua passagem dentro do coletivo, depositando 1,50 euro numa vending machine. O bilhete antecipado custa 1,20 euro. Quanto aos cartões, há várias modalidades. Não há ninguém controlando se você pagou ou não, se validou ou não. Porém, tá rolando uma campanha educativa: "io vado e non evado".
Chegando ao miolo do centro histórico, próximo ao cruzamento em que a via San Felice se torna via Ugo Bassi, o ônibus parou. Pensamos que se tratava do sinal vermelho. Depois de um tempo fora do normal, o motorista abre a porta para que a gente desça. Há um Citroën parado exatamente no meio da rua, que é acesso importante para o centro e para o outro lado da cidade. A polícia está por ali, mas parece tranquila. Não é um acidente.
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| Não adianta fuçar aí, gente. Pra consertar esse carro, só com mestrado em engenharia eletrônica. |
Pergunto ao motorista do ônibus se o carro está estragado, e ele diz que sim. "E por que não empurram?" – o verbo "empurrar" foi na base do gesto, porque não sei como se diz em italiano. Aí ele me explica que o carro está com o freio de mão puxado, e que esse freio é eletrônico e pifou. Não tem como tirar o carro dali, a não ser com um guindaste – palavras dele, se divertindo com a história. Pra terminar, me diz que posso pegar outro ônibus da mesma linha uns 300 metros à frente (nesse momento aprendo que o bilhete vale por 1 hora).
Enquanto sigo para a próxima fermata (ponto de ônibus) fico pensando: a cidade tem centenas de anos, já passou por um monte de guerras e disputas de poder e, até hoje, não conseguiram pará-la. Estava faltando um moderníssimo Citroën automático com o freio de mão puxado.
22.2.13
E la neve viene
Cheguei em Bologna na segunda-feira, 18 de fevereiro. Como já disse, dia frio, mas lindo. Muito parecido com aqueles de Curitiba em julho, quando a grama e os telhados amanhecem branquinhos de geada. Não sei se por ser mais seco ou porque a cidade é muito "fechada" (ruas estreitas, edifícios colados uns aos outros) e não venta, mas foi bem tranquilo andar na rua. Minhas roupas de frio brasileiro deram conta do recado.
Na quarta, o tempo mudou. Amanheceu nublado e garoando. A meteorologia previa neve para o dia seguinte. Quinta-feira, primeira coisa que fiz ao acordar foi olhar pela janela. O friozão e a chuvinha continuavam, mas nada de neve. Cheguei na faculdade para a aula das 11. Depois de algum tempo, olhei pela janela e percebi que a chuva tinha passado a cair em câmera lenta: as gotinhas de água, mais pesadas, estavam se transformando em leves flocos de gelo. Nada a ver com o filme de Fellini, mas não consegui evitar o trocadilho: "E la nave va", e la neve viene.
Os montes de neve no chão e os telhados brancos só apareceram hoje, sexta-feira. Difícil fugir do clichê: é um espetáculo. Capricho nos agasalhos e saio pra continuar resolvendo questões da minha estadia. Caminho mais ou menos 1 km até o escritório da Universidade que atende os estudantes estrangeiros. O trajeto tem poucos trechos com aquelas passagens sob os arcos. Assim, caminho ao ar livre, com neve caindo no casaco. O frio não é um problema. Tirando o rosto, descoberto, de resto estou quentinha. O desafio maior é não escorregar no gelo. Uso uma botinha de camurça com sola de couro, lisa. Tomo nota mentalmente: comprar um par de chuteiras. Brincadeirinha. Mas um sapato com algum tipo de "garra" ajudaria a andar mais rápido.
Descubro que vou ter que comprar mais uma stampa (um tipo de selo de autenticação) de quase 15 euros e pagar mais algumas taxas, mas ok. Saio do tal escritório e vou para a faculdade. Estou orgulhosa porque andei na neve sem passar frio, porque encaminhei mais uma documentação, porque acertei o caminho de volta sem olhar no mapa, porque não paguei mico escorregando na rua, porque consegui fazer tudo isso e ainda chegar na aula no horário.
O professor está do lado de fora da sala, olhando por uma porta de vidro para o jardim coberto de neve. Diz que ficou pensando sobre o fato de eu nunca ter visto neve antes (havíamos conversado sobre isso ontem) e que devia ser emocionante. Concordei com ele e, como meu vocabulário italiano ainda é bastante limitado, não consegui passar do è bello!.
Só que é muito mais do que bello, mesmo para um europeu que já deve ter visto muita neve na vida. Tanto que ele ainda consegue se encantar: apontou para as árvores do jardim e chamou minha atenção para o desenho formado pela espuma de gelo ao recobrir os galhos nus.
Mais alunos chegam e nos encaminhamos para a sala. Antes de entrar, ele diz que acessou o blog hoje de manhã pra ver se tinha algum texto com minhas impressões sobre a neve. Ainda não tinha, mas agora tem. E com imagens da neve imaculada recobrindo os jardins do convento, contrastando com o avermelhado característico da arquitetura bolonhesa: a castidade das religiosas que um dia viveram em Santa Cristina e o sangue do Cristo a quem, simbolicamente, todas tomaram por esposo.
Na quarta, o tempo mudou. Amanheceu nublado e garoando. A meteorologia previa neve para o dia seguinte. Quinta-feira, primeira coisa que fiz ao acordar foi olhar pela janela. O friozão e a chuvinha continuavam, mas nada de neve. Cheguei na faculdade para a aula das 11. Depois de algum tempo, olhei pela janela e percebi que a chuva tinha passado a cair em câmera lenta: as gotinhas de água, mais pesadas, estavam se transformando em leves flocos de gelo. Nada a ver com o filme de Fellini, mas não consegui evitar o trocadilho: "E la nave va", e la neve viene.
Os montes de neve no chão e os telhados brancos só apareceram hoje, sexta-feira. Difícil fugir do clichê: é um espetáculo. Capricho nos agasalhos e saio pra continuar resolvendo questões da minha estadia. Caminho mais ou menos 1 km até o escritório da Universidade que atende os estudantes estrangeiros. O trajeto tem poucos trechos com aquelas passagens sob os arcos. Assim, caminho ao ar livre, com neve caindo no casaco. O frio não é um problema. Tirando o rosto, descoberto, de resto estou quentinha. O desafio maior é não escorregar no gelo. Uso uma botinha de camurça com sola de couro, lisa. Tomo nota mentalmente: comprar um par de chuteiras. Brincadeirinha. Mas um sapato com algum tipo de "garra" ajudaria a andar mais rápido.
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| Calçada cheia de neve: #comofas pra não cair?... |
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| ...talvez caminhar pela neve fofa. |
Descubro que vou ter que comprar mais uma stampa (um tipo de selo de autenticação) de quase 15 euros e pagar mais algumas taxas, mas ok. Saio do tal escritório e vou para a faculdade. Estou orgulhosa porque andei na neve sem passar frio, porque encaminhei mais uma documentação, porque acertei o caminho de volta sem olhar no mapa, porque não paguei mico escorregando na rua, porque consegui fazer tudo isso e ainda chegar na aula no horário.
O professor está do lado de fora da sala, olhando por uma porta de vidro para o jardim coberto de neve. Diz que ficou pensando sobre o fato de eu nunca ter visto neve antes (havíamos conversado sobre isso ontem) e que devia ser emocionante. Concordei com ele e, como meu vocabulário italiano ainda é bastante limitado, não consegui passar do è bello!.
Só que é muito mais do que bello, mesmo para um europeu que já deve ter visto muita neve na vida. Tanto que ele ainda consegue se encantar: apontou para as árvores do jardim e chamou minha atenção para o desenho formado pela espuma de gelo ao recobrir os galhos nus.
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| Árvores rendadas no jardim da parte de trás do prédio da faculdade. |
Mais alunos chegam e nos encaminhamos para a sala. Antes de entrar, ele diz que acessou o blog hoje de manhã pra ver se tinha algum texto com minhas impressões sobre a neve. Ainda não tinha, mas agora tem. E com imagens da neve imaculada recobrindo os jardins do convento, contrastando com o avermelhado característico da arquitetura bolonhesa: a castidade das religiosas que um dia viveram em Santa Cristina e o sangue do Cristo a quem, simbolicamente, todas tomaram por esposo.
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| Neve em contraste com a típica arquitetura avermelhada de Bologna: la rossa (um dos apelidos da cidade) vira la bianca. |
18.2.13
Gaiatices de Bologna
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| Uma das muitas plaquinhas gaiatas nas paredes da Osteria Broccaindosso: "Algumas mulheres amam tanto o próprio marido que, para não gastá-lo, usam o marido das amigas!". |
Primeira vez na Europa, primeira na Itália, primeiro dia dos mais ou menos 150 que passarei em Bologna para o doutorado sanduíche. Aterrisso com céu lindo, uns 8º de temperatura. Claro que me lembrou Curitiba em julho. Cheguei no hotel mais ou menos na hora do almoço, morta de cansaço. Dormi a tarde toda, acordei no começo da noite.
Depois de um banho maravilhoso, coloco segunda pele, gola alta fininha, gola alta de malha grossa preta, meia-calça, calça cor de areia de veludo fake, casaco de lã C&A velho-pra-caralho cor-de-camelo e manta
Peço ao senhorzinho da recepção, em portuliano fluente, uma sugestão de lugar bom&bonito&barato pra jantar. Ele me chama de signorina (já adorei o vovô!), faz um mapinha e lá sigo eu, pela agora escura rua do hotel, a estreitinha Strada Maggiore (herança medieval da cidade).
Friozão delicioso. Diz o Weather Channel que está 1º. Poucas pessoas na rua, mas todas jovens. As calçadas ficam sob enormes marquises com arcos, sobre os quais estão prédios antigos de portas enormes (tipo porta de castelo) que abrigam de tudo: consultórios, academia de yoga, apartamentos. Vendinhas e quitanda ainda abertas, mesmo às 10 da noite.
Viro na stradina da Osteria Broccaindosso. Na rua, tudo silencioso e vazio. Mas quando entro no local, é outro mundo: pequena e aconchegante, a osteria está cheia de gente. A maior parte das mesas está ocupada por grupos de pessoas. Parecem ser habitués do local, pois conversam com o dono.
Conseguem uma mesa pra mim na parte de trás. Lá também há grupos, mas de gente mais jovem, alguns falando italiano, outros, inglês. Não parecem turistas. Devem ter relação com a universidade (a faculdade de Ciências Políticas é bem perto dali).
Osteria é um restaurante simples e muito familiar, mais simples ainda que uma trattoria. Por isso, quando peço o menu à garçonete (filha do dono?) faz sentido ela dizer que não há menu: é só “vocale”. Recita uma lista de antipasti e depois de primi piatti. Entendo o suficiente pra ter uma noção do que são os pratos e escolho uma massa feita à base de ovos, parmiggiano e pão amassado, chamada passatelli, acomapanhada de pedaços de coração de alcachofra. Também me dou ao luxo de uma taça de vinho tinto da casa.
O passatelli chega rápido, servido num prato fundo (como aqueles de sopa) e relativamente pequeno. Estou com uma fome razoável e penso se não vai ser pouco (afinal, uma refeição italiana completa tem entrada, primeiro prato, segundo prato, um terceiro, além de queijos e sobremesa).
A massa, como se fosse um espaguete bem grosso e mais curto (não é de enrolar com o garfo), é divina. Olho maior que a barriga: o prato é mais do que suficiente. Como tudo, me esbaldo, mas não conseguiria comer mais.
O dono vem limpar a mesa e pergunta se eu quero o secondo piatto. "Non, grazie!" E sobremesa? Também recuso e, lembrando de uma das aulas de italiano, peço: "vorrei un caffè".
[A parte da sobremesa vale um comentário: a mesa ao lado pediu dolci. Ouvi a garçonete recitando as opções. De repente, chegam várias travessas: uma mousse de chocolate, uma torta, uns bolinhos que parecem sonhos redondinhos, uma calda de chocolate. E as pessoas da mesa vão se servindo dessas travessas, à vontade! Não sei qual é o esquema, se paga por cabeça. Mas fiquei impressionada! P.S.: veja as resenhas no Trip Advisor, no link sobre a Osteria logo acima.]
Meu espresso chega, curto do jeito que gosto (não pedi que fosse assim, pelo jeito é default) e com um sachê de açúcar. Nada dessa frescura de adoçante (nas refeições do voo da Alitalia também não tinha adoçante). Logo em seguida, o dono coloca um prato na minha frente com um pedaço de torta. Vai ver ele não se conformava que eu não havia pedido dolci! Apesar da caixa de bombons (presente de despedida de uma tia!) que me esperava no quarto do hotel, é evidente que não recusei. A torta era leve, de sabor suave. Pensei ter sentido gostinho de laranja. Pergunto: “arancia”? “Non, amarene.” Estranho uma torta de cereja que é amarela, mas enfim... Peço mais um café pra acompanhar a torta. Depois, ainda lembrando das aulas de italiano, toda orgulhosa, solto um “il conto, per favore”.
Confesso que rolava um certo receio sobre o valor do conto. Como não tinha menu, também não sabia os preços. A placa do lado de fora dizia que os pratos custavam entre 12 e 20 euros. Torci para o meu estar entre os mais baratos. Bom, eu devo estar com muita cara de cachorro caído de mudança, porque o prato, o vinho, dois cafés e a sobremesa (que tinha sido cortesia, ok), saíram por 13 euros.
Parece que a opinião do italiano que veio ao meu lado no voo do Rio para Roma tem sua razão de ser: disse ele que Bologna é a cidade italiana onde melhor se come e onde as pessoas são mais simpáticas.
Update em 22/2/2013: hoje passei em frente à Osteria e fotografei a entrada.
27.1.13
245 mortos em Santa Maria: a culpa também é nossa

Créditos da imagem: W Arte Pop.
Provavelmente você vai se chocar com essa informação. Mas sabe de quem é parte da culpa pela tragédia da boate em Santa Maria? Minha. Sua. De todo mundo que frequenta bar e balada e acha que, por ser divertimento, não precisa exigir ser bem tratado, ter segurança, pagar um preço justo pelas coisas.
Perto de não ter segurança, o resto é o de menos. Mas tudo faz parte do mesmo princípio. Quando você paga uma grana para ENTRAR em um lugar, o mínimo que a casa pode oferecer é banheiros limpos, papel higiênico, sabonete e papel para enxugar a mão, bom atendimento e seguranças que não sejam estúpidos e trogloditas.
Há alguns dias, estive no Santa Marta, um bar famoso de Curitiba, na região do Batel. Um lugar com comida e música boa, mas chopp a preço extorsivo e que... cobra para entrar. Você fica p... da vida se tiver que esperar 40 minutos na fila do banco, não? Mas as pessoas, ali, ficaram quieitinhas esperando todo esse tempo para pagar a conta e sair do bar. Preocupação zero em agilizar o atendimento.
Ah, o preço da entrada é para pagar as atrações. Parte, sim. Mas se você é músico, sabe o quanto recebe desse valor. Algumas casas são justas, outras exploram as bandas.
Talvez você seja muito jovem, seja estudante, e ache tudo isso uma caretice. Afinal, hora de diversão não é hora de pensar nessas coisas. Repense. Dê valor ao seu dinheiro – que, normalmente, a não ser que você seja rhyca ou rhyco, nessa fase da vida é pouco e suado. Exija um tratamento adequado, conforto, segurança. E não deixe que se crie um ambiente onde esse tipo de tragédia fica mais fácil de acontecer.
29.2.12
O sofrimento das dietas
Faz um tempão que não atualizo o blog. Mas no último post vocês viram que estou colecionando revistas para minha pesquisa de doutorado. Não fosse isso, Claudia dificilmente faria parte das minhas compras mensais.
Apesar de adorar o visual desse tipo de revista, a cada mês fico mais injuriada com o conteúdo. No mês de janeiro, chamou minha atenção o depoimento da redatora-chefe de Claudia, que contava sobre a dieta que a fez perder 21 quilos.
A contradição entre o que ela conta e a ideia que a matéria deseja vender – de que foi uma dieta "sem sofrimento" – serviu de inspiração para minha coluna de fevereiro no Digestivo Cultural.
Se quiser conferir, vá lá: "Emagrecer sem sofrer? Isso é papo de revista".
Apesar de adorar o visual desse tipo de revista, a cada mês fico mais injuriada com o conteúdo. No mês de janeiro, chamou minha atenção o depoimento da redatora-chefe de Claudia, que contava sobre a dieta que a fez perder 21 quilos.
A contradição entre o que ela conta e a ideia que a matéria deseja vender – de que foi uma dieta "sem sofrimento" – serviu de inspiração para minha coluna de fevereiro no Digestivo Cultural.
Se quiser conferir, vá lá: "Emagrecer sem sofrer? Isso é papo de revista".
20.8.11
Precisa-se de revistas
E quem não precisa? Revista é tão legal, né? No meu caso, as revistas são para estudo. E como eu não preciso delas exatamente na data em que vão para as bancas, pensei que podia conseguir algumas doações.
Defini como corpus da minha pesquisa de doutorado as revistas Veja, Exame e Claudia. Vou analisar exemplares a partir de agosto de 2011 até janeiro de 2012 (ou um pouco mais, dependendo do que encontrar).
Se você assina ou compra estas revistas e costuma doar/jogar fora depois de lê-las, por favor, guarde-as para mim que irei buscá-las. Pode ser em Curitiba ou em São Paulo.
Obrigada!
10.8.11
Curso intensivo Semiótica das Paixões - PUCSP
Começa amanhã, dia 11/8, o curso intensivo de Semiótica das Paixões com a semioticista italiana Isabella Pezzini, das 19h às 21h, na PUC-SP. Baixe o arquivo para visualizar melhor as informações.
23.5.11
Para ver e sentir as Dores da Colômbia
Se você está em Curitiba, recomendo uma visita à exposição Dores da Colômbia, em cartaz no MON - Museu Oscar Niemeyer até 14 de agosto. Pela imagem você já deve ter reconhecido o artista: Fernando Botero, famoso pelas formas roliças e voluptuosas.
Nestas obras, porém, nada de humor ou sátira. Os corpos gorduchos, muitas vezes nus, estão crivados de balas, despedaçados por serras elétricas, subjugados por bandidos (?) com facas e metralhadoras. Quando não estão sendo agredidos, rezam ou choram pela morte dos seus.
Em contraponto às figuras gorduchas, esqueletos “risonhos”, portando faixas e bandeiras com as cores da Colômbia, acompanham desabrigados e desalojados que vagam pelo país. As paisagens e o casario colorido sugerem alegria, o que só aumenta o impacto pelo contraste com os atos de violência para os quais servem de cenário.
A “inspiração” para o artista veio dos massacres (aliás, muitas obras têm essa palavra no título) provocados pelo governo, por guerrilheiros, por grupos paramilitares, pelo narcotráfico. São pinturas a óleo, aquarelas e desenhos produzidos entre 1999 e 2004.
Uma declaração de Botero estampa uma das paredes da sala expositiva: “não vou fazer negócio com a dor da Colômbia”. Todas as obras da coleção foram doadas por ele ao Museu Nacional da Colômbia, que agora faz circular a exposição em um programa de itinerância.
20.5.11
Sobre a cerveja das Tchecas - carta aberta aos alunos de Comunicação da Facinter
Olá pessoal
Queria retomar um assunto que surgiu ontem, durante a palestra sobre o livro "Sociedade excitada", respondendo a pergunta feita por um dos alunos, sobre minha opinião quanto à questão ética do episódio (vejam aqui uma excelente análise).
O que chamamos de web 2.0 permite que qualquer um se torne emissor (pode ter seu blog, gravar seu vídeo e postar no YouTube, fazer uma galeria de fotos no Flickr etc.). Lembram que falamos ontem sobre a pressão por emitir, por estar "aí"? Quando todos podem produzir conteúdo, diferenciar o que é produção de uma pessoa ou de uma empresa fica mais complicado. Criar conteúdos com cara de "vida real" tem sido uma estratégia frequente na publicidade. Algumas iniciativas são bem sucedidas. Outras, resvalam para o mau gosto e até a falta de respeito.
A cerveja Proibida usou essa estratégia. No entanto, ela continuaria no ambiente das redes sociais, não fosse o problema causado pela "pressão das notícias", pela necessidade de estar sempre causando sensação, que comentamos ontem. O programa de TV Pânico foi atrás das meninas para tornar a sua atração mais "sensacional". Mais uma vez, é a TV, a mídia de massa, buscando conteúdo naquilo que é produzido nas redes sociais, pelos indivíduos comuns. O problema, neste caso, é que ela avaliou errado: veiculou um conteúdo que foi produzido com intenções comerciais.
O artigo no link logo acima fala que a tal cerveja, quando realmente for lançada, pode ter problemas com a mídia, devido a esse episódio. A imprensa não gosta de ser enganada. Por outro lado, a imprensa anda se confundindo demais com entretenimento, o que a deixa mais vulnerável a esse tipo de equívoco. Cadê a investigação, a busca, a apuração das notícias? O Pânico só foi atrás dessas meninas porque é um programa que resvala para o mau gosto. Mulheres seminuas, com apelo sensual, foi uma isca excelente para eles. Fica a lição.
Do ponto de vista do receptor, do cidadão comum, acredito que esse tipo de situação deve servir como lição. Precisamos ter uma visão mais crítica sobre os conteúdos da mídia, selecionar melhor o que ler, o que assistir, em que acreditar. Recomendo a vocês a leitura de "O culto do amador", que fala sobre a questão da pouca qualidade do conteúdo produzido pelos usuários (apesar de eu não concordar com os argumentos do autor). Rende uma boa discussão.
Se eu acho antiético? A resposta é difícil. Tendo a acreditar que não. Qualquer um pode produzir conteúdo e postar na internet. Como lidar com esse fato irreversível? Aprendendo a ter discernimento e usando nosso poder de consumidores – de produtos e de mídias, boicotando aqueles que não nos respeitam.
E vocês, o que acham?
20.3.11
Curso básico de etiqueta no trânsito. Aula 1: estacionamento.
A cidade está lotada de carros. Falta espaço nos estacionamentos, que dirá nas ruas. Há tanta demanda que os preços de estacionamento em Curitiba já alcançaram os de São Paulo (onde espaço para circular e deixar o carro é escasso há bastante tempo). O melhor seria ter menos carros nas ruas, usar mais o transporte coletivo, andar de bicicleta etc. Mas, enquanto não chegamos a esse nível de consciência e desenvolvimento, podíamos, ao menos, atenuar o problema com medidas simples, ao alcance de todos: a educação e o senso de coletividade.
Uma das coisas que mais meemputecem deixam irritada na rua é ver carros mal estacionados, tirando a vaga de um ou mais veículos, principalmente em áreas onde é difícil encontrar lugar para parar. Veja os espaços desperdiçados por quem acha que a rua é a ampla e irrestrita garagem de casa. O lugar? Imediações da Cantina do Délio e da Bella Banoffi, lotados nos finais de semana.
Alguns podem argumentar: "a rua é pública, eu paro onde eu quero". São as mesmas pessoas que não fazem conversão quando ela é obrigatória, engarrafando a via que deveria fluir; as que miram a mediatriz do carro na faixa que separa as pistas, atravancando as duas vias; as que vão devagarinho almoçar em Santa Felicidade (o que é ótimo), mas fazem questão de andar assim na faixa da ESQUERDA. Enfim, aqueles que são motoristas, mas não são cidadãos, acham que vivem sozinhos no mundo e têm uma péssima educação.
Existem ainda aqueles que não sabem/não gostam de estacionar, e por isso ocupam uma vaga dupla com seu único carro, para ter mais espaço ao sair. Se você pertence a esse grupo e mesmo assim conseguiu a habilitação (o teste do Detran exige proficiência em baliza), faça um favor à coletividade: abra mão da manobra e pare seu carro num estacionamento.
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| Que sorte! Achou uma vaga e ainda conseguiu deixar todo esse espaço entre o outro carro? |
Uma das coisas que mais me
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| Ops, espação na frente também. Na sua vaga, vermelhinho, caberiam dois carros com motoristas que sabem estacionar direito. |
Alguns podem argumentar: "a rua é pública, eu paro onde eu quero". São as mesmas pessoas que não fazem conversão quando ela é obrigatória, engarrafando a via que deveria fluir; as que miram a mediatriz do carro na faixa que separa as pistas, atravancando as duas vias; as que vão devagarinho almoçar em Santa Felicidade (o que é ótimo), mas fazem questão de andar assim na faixa da ESQUERDA. Enfim, aqueles que são motoristas, mas não são cidadãos, acham que vivem sozinhos no mundo e têm uma péssima educação.
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| Xiii, o carro preto também está ocupando mais espaço do que deve/precisa. |
Existem ainda aqueles que não sabem/não gostam de estacionar, e por isso ocupam uma vaga dupla com seu único carro, para ter mais espaço ao sair. Se você pertence a esse grupo e mesmo assim conseguiu a habilitação (o teste do Detran exige proficiência em baliza), faça um favor à coletividade: abra mão da manobra e pare seu carro num estacionamento.
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| Que beleza estes dois, hein? Tem espaço pra tudo aí, menos para educação e bom senso. |
3.3.11
Ciclo Semiótica, Cinema e Espaço Urbano - PUC-SP
CICLO SEMIÓTICA, CINEMA E ESPAÇO URBANO
Dias 10, 16, 18, 21, 23, 24, 25 e 30 de março, das 18h às 22h30
Centro de Pesquisas Sociossemióticas
Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica - PUC-SP
Organização: Profª Drª Ana Claudia de Oliveira (PUC-SP:COS/CPS)
Convidados especiais:
• Prof. Dr. PierLuigi Cervelli (Università Sapienza de Roma)
• Luciano Ramos (crítico cinematográfico, pesquisador do CPS, pós graduando da UNICAMP: Multimeios)
Programação:
• 18h às 20h – exibição do filme
• 20h às 20h30 – intervalo
• 20h30 às 22h30 – intervenções e debates
Local: PUC-SP - Campus Perdizes - Rua Ministro Godoy, 969 - São Paulo. Veja o auditório de cada dia na lista de filmes, abaixo.
Público-alvo: alunos da Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, Ciências Sociais, Geografia, História e outros que têm estudos sobre as metrópoles; demais interessados.
Entrada franca. Certificado para os inscritos. Inscrições: sil.alencar@gmail.com
Objetivo: situar questões das grandes cidades com as suas práticas de vida e modos de presença dos seus habitantes na cotidianidade urbana, a fim de permitir a criação de uma contextualização das principais problemáticas entorno da visibilidade da cidade, do habitante, das formas de vida e de sociabilidade.
Cada sessão será seguida de um debate com especialistas e com a participação de pesquisadores, universitários e curiosos que se interessam por esse temário da metrópole contemporânea.
Seleção de filmes estrangeiros e brasileiros:
10/3 - Uccellacci e uccellini (1969), direção de Pier Paolo Pasolini - Auditório 100
16/3 - Brutti, Sporchi e cattivi (1976), direção de Ettore Scola - Auditório 134 C
18/3 - Gomorra (2008), direção de Matteo Garrone - Auditório 134 C
21/3 - La Zona (2007), direção de Rodrigo Plà - Auditório 134 C
23/3 - Contra todos (2005), direção de Roberto Moreira - Auditório 134 C
24/3 - Não por acaso (2007), direção de Philippe Barcinski - Auditório 100
25/3 - Os doze trabalhos (2006), direção de Ricardo Elias - Auditório 134 C
30/3 - O signo da cidade (2008), direção de Ricelli - Auditório 134 C
23.2.11
Por que as curitibanas não usam saia?
Foi meu marido que observou a primeira vez: as curitibanas não usam saia. Ou usam menos do que mulheres de outros lugares. Comecei a reparar. Talvez ele tenha razão. De certa forma, faz sentido.
A ideia ficou rolando na minha cabeça durante algum tempo. Até que me caiu nas mãos uma reportagem sobre as mulheres de Curitiba, publicada na revista Nova de 1982! Não teve como não juntar as duas coisas. E o resultado é este texto, publicado no Digestivo Cultural.
O que você acha? Dê uma olhadinha lá e comente.
19.2.11
Atelier Passé Composé
Quando não estou fazendo job, nem lendo, nem estudando, fico inventando coisas. E como não nego minha raça de publicitária e redatora, tive que criar uma marca para minhas artes: Passé Composé. Já tem até blog: http://passadocomposto.blogspot.com.
31.1.11
Estúpido Cupido, você lembra?
Você ainda tem em casa discos de vinil e fitas cassete? Eu tenho duas fitas de ótimas trilhas sonoras de novelas, como já não se faz mais nos dias de hoje. Uma delas é de Hipertensão, de 1986/1987, e a outra de Estúpido Cupido, que foi ao ar entre 1976 e 1977.
O @tatavaz está digitalizando as fitas para mim. Já tinha nascido na época de Estúpido Cupido, mas não lembro da novela. Curiosa, fui buscar mais informações. Foi a última novela em P&B feita pela Globo. Mas tem uma coisa bacana: o capítulo final foi gravado em cores, sem que os atores soubessem.
A história se passa em 1961 na cidade fictícia de Albuquerque. A mocinha é Françoise Fourton. Se chama Maria Thereza (mesmo nome da mulher de Jango, que assumiu a presidência do Brasil no lugar de Jânio Quadros, justamente neste ano; era a nossa Jackie Kennedy). Bom, não sei muito mais do que isso, mas encontrei dois vídeos no YouTube: um com parte do primeiro capítulo da novela, outro com parte do último.
O último capítulo tem um sofisticado jogo de metalinguagem, inimaginável para uma novela atual, quando os autores e diretores simplificam tudo ao máximo, para que a narrativa seja à prova de qualquer nível de compreensão e interpretação.
Suponho que esta última parte se passe já na década de 70, talvez na época da exibição. O Brasil ainda está na ditadura militar. Mesmo assim, tem um diálogo que critica a falta de politização das músicas da Bossa Nova, dizendo que os anos 1960 eram muito ingênuos. A censura já devia estar bem mais branda...
Você assistiu a novela? Lembra dela? Por favor, conte suas impressões! Se não assistiu, veja aqui partes do primeiro e do último capítulo. E aqui neste site você pode ouvir as músicas da trilha.
O @tatavaz está digitalizando as fitas para mim. Já tinha nascido na época de Estúpido Cupido, mas não lembro da novela. Curiosa, fui buscar mais informações. Foi a última novela em P&B feita pela Globo. Mas tem uma coisa bacana: o capítulo final foi gravado em cores, sem que os atores soubessem.
A história se passa em 1961 na cidade fictícia de Albuquerque. A mocinha é Françoise Fourton. Se chama Maria Thereza (mesmo nome da mulher de Jango, que assumiu a presidência do Brasil no lugar de Jânio Quadros, justamente neste ano; era a nossa Jackie Kennedy). Bom, não sei muito mais do que isso, mas encontrei dois vídeos no YouTube: um com parte do primeiro capítulo da novela, outro com parte do último.
O último capítulo tem um sofisticado jogo de metalinguagem, inimaginável para uma novela atual, quando os autores e diretores simplificam tudo ao máximo, para que a narrativa seja à prova de qualquer nível de compreensão e interpretação.
Suponho que esta última parte se passe já na década de 70, talvez na época da exibição. O Brasil ainda está na ditadura militar. Mesmo assim, tem um diálogo que critica a falta de politização das músicas da Bossa Nova, dizendo que os anos 1960 eram muito ingênuos. A censura já devia estar bem mais branda...
Você assistiu a novela? Lembra dela? Por favor, conte suas impressões! Se não assistiu, veja aqui partes do primeiro e do último capítulo. E aqui neste site você pode ouvir as músicas da trilha.
21.1.11
O café do CCBB
São 2 da tarde. Chego no Centro Cultural Banco do Brasil, centro do Rio, para ver a exposição do Escher. Antes quero tomar um café. Subimos na Brasserie Brasil - Restaurante e CAFÉ, que fica no mezanino na livraria Travessa que tem no CCBB. Abaixo, o mesmo restaurante e CAFÉ tem um balcão e mais mesinhas (que estão lotadas, por isso subo ao mezanino). Sentamos em uma mesa. Tatá pede uma coca. Garçom traz a coca. Peço o café.
- Não servimos café nessa hora.
- Como?
- Se a senhora quiser tomar um café, pode voltar às 16 horas. Agora é só essa parte do cardápio aqui (menu do almoço).
- E se eu almoçar aqui e quiser tomar um café, vocês não servem?
- Não.
- Ali embaixo, descendo a escada, é de vocês também?
- Sim.
- E você não pode pegar um café pra mim ali e trazer para cá?
- Não.
- E por que, então, vocês não avisam isso?
- (silêncio)
- Não servimos café nessa hora.
- Como?
- Se a senhora quiser tomar um café, pode voltar às 16 horas. Agora é só essa parte do cardápio aqui (menu do almoço).
- E se eu almoçar aqui e quiser tomar um café, vocês não servem?
- Não.
- Ali embaixo, descendo a escada, é de vocês também?
- Sim.
- E você não pode pegar um café pra mim ali e trazer para cá?
- Não.
- E por que, então, vocês não avisam isso?
- (silêncio)
17.1.11
Muito adjetivo = falta de conteúdo
Já aconteceu inúmeras vezes comigo: quando não há informação suficiente, ou quando o cliente não pode falar a "verdade" sobre o seu produto, o texto acaba cheio de adjetivos. São palavras que não dizem nada quando desacompanhadas de alguns substantivos que as suportem. E o pior: os adjetivos escolhidos são sempre os mesmos.
Agora pouco, na minha timeline do Twitter, aparece o post de uma marca de cosméticos e perfumaria falando sobre uma de suas fragrâncias masculinas. Diz assim: "Deo Colônia xxxxxxx: É a imagem da ousadia e do bom gosto, traduzindo modernidade, inovação e elegância".
Ok, eu sei que perfume é difícil de tangibilizar, até porque o apelo não é nada tangível, é sempre subjetivo. Mas a frase acima não diz nada. O que este produto tem que o torna a imagem da ousadia e do bom gosto? Quais características que conferem a ele o poder de traduzir a modernidade, a inovação e a elegância? Aliás, é tão difícil ser inovador nos dias de hoje. Como esse perfume conseguiu?
Ao escrever sobre um produto, não precisamos abandonar os adjetivos. Mas devemos tentar fazê-los andar de mãos dadas com fatos e justificativas, para que não despenquem no vazio.
E isso vale também para o Twitter. Limitação de caracteres não é desculpa, não pode ter preguiça de adaptar o texto ao meio.
Agora pouco, na minha timeline do Twitter, aparece o post de uma marca de cosméticos e perfumaria falando sobre uma de suas fragrâncias masculinas. Diz assim: "Deo Colônia xxxxxxx: É a imagem da ousadia e do bom gosto, traduzindo modernidade, inovação e elegância".
Ok, eu sei que perfume é difícil de tangibilizar, até porque o apelo não é nada tangível, é sempre subjetivo. Mas a frase acima não diz nada. O que este produto tem que o torna a imagem da ousadia e do bom gosto? Quais características que conferem a ele o poder de traduzir a modernidade, a inovação e a elegância? Aliás, é tão difícil ser inovador nos dias de hoje. Como esse perfume conseguiu?
Ao escrever sobre um produto, não precisamos abandonar os adjetivos. Mas devemos tentar fazê-los andar de mãos dadas com fatos e justificativas, para que não despenquem no vazio.
E isso vale também para o Twitter. Limitação de caracteres não é desculpa, não pode ter preguiça de adaptar o texto ao meio.
16.1.11
Mangia che te fa bene
Delicioso almoço em família no Torna Sorriento. É um restaurante que parece ter tido dias melhores, do tempo em que era moda aqui em Curitiba aquelas cantinas mais penumbrentas, com cara de velhas, ao estilo Baviera, Sacristia e Calabouço.
O Torna Sorriento está sempre meio vazio, o que pode causar uma má impressão ou certa melancolia. Acho que a frequência maior é dos clientes tradicionais, que almoçam e jantam lá há anos. A vantagem: um atendimento de primeira, coisa que tem sido rara hoje em dia, em qualquer tipo de negócio.
Costumo ir de vez em quando, desde que era adolescente. Hoje comemos uma das especialidades da casa: uma deliciosa perna de carneiro assada, rodeada de brócolis e batatas. Um bela salada, arroz e penne na manteiga acompanham o prato. Serve quatro pessoas famintas traquilamente. E digo com segurança: é muuuuito melhor que o carneiro do Famiglia Fadanelli, que também oferece um prato parecido com esse.
Já que o restaurante não tem site, coloquei este vídeo que garimpei no YouTube e que mostra o interior da casa. Não é o almoço da minha família, não conheço ninguém do vídeo, é apenas ilustrativo. Buon appetito!
O Torna Sorriento está sempre meio vazio, o que pode causar uma má impressão ou certa melancolia. Acho que a frequência maior é dos clientes tradicionais, que almoçam e jantam lá há anos. A vantagem: um atendimento de primeira, coisa que tem sido rara hoje em dia, em qualquer tipo de negócio.
Costumo ir de vez em quando, desde que era adolescente. Hoje comemos uma das especialidades da casa: uma deliciosa perna de carneiro assada, rodeada de brócolis e batatas. Um bela salada, arroz e penne na manteiga acompanham o prato. Serve quatro pessoas famintas traquilamente. E digo com segurança: é muuuuito melhor que o carneiro do Famiglia Fadanelli, que também oferece um prato parecido com esse.
Já que o restaurante não tem site, coloquei este vídeo que garimpei no YouTube e que mostra o interior da casa. Não é o almoço da minha família, não conheço ninguém do vídeo, é apenas ilustrativo. Buon appetito!
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