29.11.13

Minhas (não tão) sinceras desculpas

Há quatro meses, celebrei a abertura do Café do Solar do Rosário no Largo da Ordem, em Curitiba. Desde então, tenho sido uma frequentadora assídua. Mas nem isso foi suficiente para evitar uma situação desagradável e, pior, a indiferença na reparação de tal situação.

Na quinta-feira da semana passada, dia 21 de novembro, estive com meus alunos no Café do Solar do Rosário. Aproveitei que era uma aula mais light, de orientação de trabalho, para mudar um pouco os ares. Turma pequena, não incomoda ninguém. Infelizmente, fomos super maltratados. O garçom aproximou-se de uma das mesas onde eles estavam trabalhando e disse que, se quisessem usar o wi-fi do café, deveriam consumir algo. Bom, essa história eu contei no Facebook, você pode ver mais detalhes aqui.

No dia seguinte, recebi uma mensagem das proprietárias do café. Pediam desculpas pelo ocorrido e diziam, literalmente: “Gostaríamos de poder contar com sua colaboração e tentar reparar o fato de alguma maneira”.

Mesmo em meio a tantas falas vazias nos dias de hoje, a intenção delas me pareceu autêntica. Fiquei aliviada por acreditar que havia uma disposição sincera em consertar o que havia ocorrido, já que eu gostava do Café. Normalmente, quando um funcionário de uma empresa faz esse tipo de coisa, não é porque ele decidiu assim. Ele o faz por orientação dos patrões ou por entender a política da organização e agir de acordo com ela. Achei que este caso era uma exceção.

No clima de boa vontade que parecia estar pautando o nosso diálogo, escrevi um longo e-mail explicando o hábito que tenho de levar os alunos para aulas em locais diferentes; falei deles, dos seus valores, do quanto ficaram chateados; abri meu coração, na crença de que haveria empatia, e que elas concordariam com a reparação que eu pedia: apenas e simplesmente que fossem até a nossa instituição na segunda-feira seguinte e pedissem desculpas à turma, explicando a eles exatamente o que tinham dito a mim nas mensagens (estamos a dois passos do Café, muito perto).

Qual não foi minha surpresa ao receber uma negação deste simples pedido. Depois de se mostrar feliz com o esclarecimento do ocorrido e de dizer que queria muito estar comigo pessoalmente (retórica), uma das proprietárias explicou que não poderiam ir até a faculdade. Ela, por problemas de saúde. A filha, por precisar buscar as crianças na escola.

Respondi novamente, agora ciente de que havia sido ingênua e que nunca houve um real desejo de reparação. Disse que seria muito importante que fossem até a faculdade, que poderiam escolher duas outras datas – na terça ou na quinta –, que poderiam enviar outra pessoa para falar em nome delas. Acredito ter sido bastante flexível e razoável.

Esperei até hoje para escrever este relato porque ainda tinha uma tênue esperança de que entrassem em contato. Só que isso não aconteceu. Não responderam mais. Todas aquelas fórmulas gentis e a intenção de se desculpar – “tentar reparar o fato de alguma maneira”, nas palavras delas – não passou de retórica, deste tipo de coisa que as pessoas educadas falam somente por falar, mas que não correspondem a um sentimento autêntico.

No fim das contas, parece mesmo que o funcionário que constrangeu meus alunos agia de acordo com o estilo de gestão de suas patroas. Um estilo que julga as pessoas que merecem ou não receber um bom tratamento. Que se pauta, ainda, por aquele provincianismo de achar que uns são melhores do que outros. E onde a polidez é algo superficial, um verniz que não sobrevive à necessidade de ser humilde e reconhecer um erro. Antes manter a pose que pedir desculpas de maneira correta.


É uma pena, Café do Solar. Minha presença e a dos meus alunos vocês não terão mais. Provavelmente, não faremos falta. Mas o mercado está mudando. Um dia, vocês e outros negociantes entenderão que qualquer consumidor é um bom consumidor, independentemente do sobrenome, da aparência ou do tamanho da conta bancária. Vocês dependerão deles para sobreviver. A não ser que a empresa não seja um negócio, mas apenas um passatempo de madame. Neste caso, continuem sem se importar.

4 comentários:

Marcia disse...

Adri, existe um grande numero de pessoas que se sente recompensada com "indenizações". Algumas bastante estapafúrdias - no meu conceito. Recentemente um padre e a igreja foram condenados à uma indenização dessas para reparar um menino molestado na infância.... então aquela monta em dinheiro vai "deletar" o trauma??? Lá naquele país considerado a mola propulsora do mundo tudo é indenizável.... talvez as donas/gerentes do Café Solar tenham esta "educação". Tipo: a gente dá um agradinho e ela volta com a turma e consome.
Mas usando outra prática... "elas não sabem com quem estavam falando" não???? E não era um coronel, um desembargador ou um político... era com uma mulher de princípios.

Sílvia Alencar disse...

Adriana, parabéns pelo post. Acho importantíssimo registrar situações como essa para termos um arquivo gigantesco de práticas culturais que passam pelo consumo. Ando me assustando muito com essas tais práticas ultimamente. As que você bem nomeou como de "autenticidade afetiva" tem se tornado cada vez mais raras, infelizmente. Parece que fomos colonizados por uma mentalidade protocolar, onde até o "olho por olho" está sendo mal, mas muito mal negociado. Qual a saída? Viver caçando a tal autenticidade? É saber poder se contentar com o inesperado. Só assim ela tem aparecido.

Sílvia Alencar disse...

Adriana, parabéns pelo post. Acho importantíssimo registrar situações como essa para termos um arquivo gigantesco de práticas culturais que passam pelo consumo. Ando me assustando muito com essas tais práticas ultimamente. As que você bem nomeou como de "autenticidade afetiva" tem se tornado cada vez mais raras, infelizmente. Parece que fomos colonizados por uma mentalidade protocolar, onde até o "olho por olho" está sendo mal, mas muito mal negociado. Qual a saída? Viver caçando a tal autenticidade? É saber poder se contentar com o inesperado. Só assim ela tem aparecido.

Adriana Baggio disse...

Marcia e Silvia, obrigada pelas palavras de apoio. Reclamar é chato, mas acho que faz parte da dinâmica do consumo, principalmente quando o consumidor é desrespeitado. Neste caso, ainda pior: me senti muito responsável pelo constrangimento sofrido por meus alunos. Deixaria pra lá algo feito contra mim. Mas quando mexem com gente sob minha responsabilidade, viro bicho.