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24.9.13

Azul é seu manto

Presidente Dilma discursa na ONU.

Hoje a presidente Dilma discursou na ONU e fez algo que muito chefe de estado cabra-macho ainda não havia feito: botou o pau na mesa e deu bronca nos americanos. Dilma foi firme, assertiva, falou sem ler*. Repudiou a espionagem que os EUA teriam feito na internet brasileiras. E resumiu bem, em dois aspectos, o porquê da gravidade de tal ato: "sem o direito à privacidade não há verdadeira liberdade de expressão e opinião e, portanto, não há efetiva democracia. Sem respeito à soberania, não há base para o relacionamento entre as nações".


Vi o discurso pela TV na hora do almoço. Me surpreendi com uma Dilma vestida de azul escuro, tão diferente do vermelho ou das cores mais claras e dos tecidos estampados de outras ocasiões. E como essa mudança cromática reforçou a contundência e pertinência das palavras dela.



Uma busca por imagens no Google, a partir dos termos Dilma + discurso + ONU resulta neste conjunto de fotografias.  Em outras ocasiões, a presidente usou roupas mais claras e de cores mais vivas.

Imediatamente, me lembrei das madonas que vi neste final de semana em duas exposições em São Paulo: Deuses e Madonas – A arte do sagrado, do acervo do Masp, e Mestres do Renascimento, no Centro Cultural Banco do Brasil. Ambas trazem diversas telas da Virgem Maria segurando o Menino Jesus.

Há todo um simbolismo nas representações das madonas. Maria é comumente retratada usando uma roupa vermelha coberta por um manto azul. Enquanto o vermelho faz referência ao aspecto humano da Virgem, o azul remete ao celestial. Vermelho é mulher, azul é santa. Vermelho profano, azul, sagrado.




Maestro del Bigallo, Virgem em Majestade com o Menino e Dois Anjos (cerca 1275): uma das madonas expostas no Masp.

Ver Dilma abandonar o tão caro tailleur vermelho (uma cor que está entre as minhas preferidas) pelo sóbrio azul escuro me fez pensar que a presidente fez elevar a importância do chefe de estado brasileiro entre as outras nações. Parece que estamos deixando um pouco de lado aquela coisa demasiado humana, mundana e profana, que tanto caracteriza o Brasil no exterior, para conquistarmos um espaço no Olimpo, no solo sagrado, entre os deuses.

Dilma nunca foi do estilo Cristina Kirchner, Deus me livre, mas hoje estava mais para um look Angela Merkel. Seu traje confunde-se cromaticamente com o cinza-escuro do púlpito de onde discursou. Seu colar e brincos (que também não são mais as clássicas, mas também frágeis e castas pérolas) e seu cabelo dourado reiteram o dourado do emblema da ONU, no mesmo púlpito. 


Juntemos o tom de voz, a postura e as roupas e temos figuras plásticas que homologam o conteúdo da fala da nossa presidente. Dilma, e o Brasil, ornam com a seriedade e com a importância das nações mundiais "desenvolvidas". E a maior prova dessa conquista é o mimetismo tranquilo, suave, que se deu entre a presidente o cenário. O Brasil não é mais um convidado, um outro, um agregado: ele faz parte, se mistura com o mundo. E, pela voz e pelos culhões da presidente, exige respeito.


* Update: o Leo Cardozzo gentilmente me alertou que a Dilma leu o discurso. Tem um TP transparente, no cantinho da fotografia.







23.5.11

Para ver e sentir as Dores da Colômbia


Se você está em Curitiba, recomendo uma visita à exposição Dores da Colômbia, em cartaz no MON - Museu Oscar Niemeyer até 14 de agosto. Pela imagem você já deve ter reconhecido o artista: Fernando Botero, famoso pelas formas roliças e voluptuosas.

Nestas obras, porém, nada de humor ou sátira. Os corpos gorduchos, muitas vezes nus, estão crivados de balas, despedaçados por serras elétricas, subjugados por bandidos (?) com facas e metralhadoras. Quando não estão sendo agredidos, rezam ou choram pela morte dos seus.

Em contraponto às figuras gorduchas, esqueletos “risonhos”, portando faixas e bandeiras com as cores da Colômbia, acompanham desabrigados e desalojados que vagam pelo país. As paisagens e o casario colorido sugerem alegria, o que só aumenta o impacto pelo contraste com os atos de violência para os quais servem de cenário.

A “inspiração” para o artista veio dos massacres (aliás, muitas obras têm essa palavra no título) provocados pelo governo, por guerrilheiros, por grupos paramilitares, pelo narcotráfico. São pinturas a óleo, aquarelas e desenhos produzidos entre 1999 e 2004.

Uma declaração de Botero estampa uma das paredes da sala expositiva: “não vou fazer negócio com a dor da Colômbia”. Todas as obras da coleção foram doadas por ele ao Museu Nacional da Colômbia, que agora faz circular a exposição em um programa de itinerância.

29.10.09

Cartilha "Uma visita ao MON"


A vocação de um museu vai além da guarda, conservação e exposição de obras. O museu tem uma função educativa, de formação de plateia. E isso é ainda mais importante em um país como o nosso, onde a cultura e aquisição de repertório são tão deficientes.

O Museu Oscar Niemeyer, o famoso Museu do Olho, de Curitiba, tem um compromisso sério com as atividades educativas. Esta área da instituição promove oficinas, organiza visitas, orienta estudantes e professores. As escolas podem levar os alunos, as famílias podem levar seus filhos.

Da mesma forma que em diversas outras instituições, a visita a um museu segue regras e até rituais. O objetivo não é elitizar o visitante ou tirar o prazer da visita, muito pelo contrário: o respeito às regras democratiza o acesso e a fruição das atrações, já que obras preservadas duram mais tempo e permanecem para futuras gerações, e o silêncio e as boas maneiras permitem que muitas pessoas aproveitem, ao mesmo tempo, as exposições.

Para explicar às crianças o que é um museu e como se portar em uma visita, o Museu Oscar Niemeyer lançou a cartilha Uma visita ao MON. Em linguagem de quadrinhos, a história mostra a visita de uma professora e de seus alunos ao museu, desde a preparação da turma antes da visita, passando pela interação com os monitores já no museu e finalizando com a professora relatando à diretora da escola os resultados do passeio.

Apesar do foco no público infantil, a última parte da história mostra ao professor o quanto atividades diferenciadas podem ser úteis no processo de ensino-aprendizagem. É uma forma de abordar esse assunto sem "se meter" no jeito que cada professor tem de ensinar, mas mostrando a ele que ações como essas também são positivas para sua vida profissional.

A cartilha do MON tem tiragem de 50 mil exemplares e servirá como material didático de apoio para alunos e professores em visita ao Museu.